Transportadora acusada de explorar refugiados

  • Segundo relatos, trabalhadores que reclamaram da situação foram demitidos

  • A Carrier tem sede em Santa Catarina e filiais em cinco estados

  • A reclamação será encaminhada ao Ministério Público do Trabalho para apuração do caso

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Dezenas de motoristas da Venezuela e de outros países latino-americanos que buscaram refúgio no Brasil foram enganados e explorados por um cargueiro chamado Transzape, que presta serviços para a multinacional de alimentos Nestlé.

Após meses de exploração, incluindo a demissão de colegas que tentavam reclamar das precárias condições de trabalho, o grupo de motoristas decidiu denunciar as irregularidades com a ajuda de advogados, organizações de apoio aos imigrantes e instituições de caridade da Igreja Católica.

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Segundo os motoristas, estrangeiros foram contatados em Boa Vista (Roraima) com promessas de trabalho, hospedagem, alimentação, regularização de documentos e ajuda para trazer seus familiares. Mas nada disso aconteceu. Dizem que tinham que trabalhar sem CNH (Carteira Nacional de Habilitação), ganhando menos do que o combinado, comendo pão com margarina e morando em um quartinho com até 16 pessoas.

“Trabalhamos de domingo a domingo. Entreguei a mercadoria e já tive que sair para outra viagem. Tive que descarregar o caminhão também. Foi muita exploração. Quando alguém reclamava, dizia que no Brasil era assim e que estaríamos muito pior se estivéssemos na Venezuela ”, disse um dos motoristas.

Quem é a transportadora responsável?

Sediada em Tubarão (SC), a transportadora Transzape tem parceiros cujos nomes não aparecem no site da empresa. De acordo com relatórios coletados por alma negra, são eles: Pedro e José Zapelini. Além da sede, a empresa possui outras cinco filiais. Duas em São Paulo, Cordeirópolis e Araçatuba, uma em Minas Gerais, uma na Bahia e outra em Santa Catarina.

Os trabalhadores venezuelanos entrevistados pela reportagem trabalhavam principalmente em São Paulo, prestando serviços para a Nestlé. Um deles disse ter sido parado duas vezes na estrada por policiais rodoviários que dirigiam o caminhão da empresa e sem licença. “Nas duas vezes, a polícia entrou em contato com a empresa e depois me liberou para continuar minha viagem. Essa era a orientação, entrar em contato com eles seria resolvido ”, relatou.

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fome e demissões

Há cerca de nove meses, um motorista venezuelano da transportadora foi atropelado em Sorocaba, no interior de São Paulo, enquanto procurava o que comer. Foi resgatado por amigos e levado para um hospital em Limeira, também no interior, onde ficou até se recuperar. “A transportadora não ajudou em nada. Você não fez nada por ele. Depois de um tempo, ele o mandou embora ”, disse um colega.

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O desligamento de funcionários que não estivessem de acordo com as condições de trabalho era uma prática da empresa. De acordo com motoristas estrangeiros, no dia 7 de outubro de 2020 um dos trabalhadores participou de uma reunião no departamento de Recursos Humanos da Nestlé e falou sobre a exploração. No dia 10, três dias após a denúncia, ele foi demitido.

Venezuelanos que trabalharam em situação análoga à escravidão na transportadora. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Os outros estrangeiros foram perguntar na empresa por que haviam mandado o colega embora e nem nos responderam ”, lembra outro estrangeiro que trabalhava na transportadora. Aqueles que foram demitidos receberam menos compensação do que o correto. “Eles descontaram as despesas com roupas e todos os materiais que usamos”, disse.

As comissões combinadas também não foram pagas, assim como as horas extras. “O pouco que recebíamos por mês tinha que ser usado para complementar a diária da alimentação. Era um trabalho excessivo, sem folga e quase sempre com fome ”, lembrou. A operadora pagou R $ 20 por dia para todas as refeições.

Um motorista que trabalhou 16 meses na Transzape relatou ter passado 12 meses trabalhando sem CNH. “Disseram que ia chegar, que era para ficar calmo, que ia chegar e por isso tínhamos que trabalhar sem documentação”, disse outro estrangeiro.

Além dos venezuelanos, um motorista cubano também foi enganado. Ele veio para o Brasil com sua esposa e filhos, mas deixou o emprego por causa da exploração.

Ministério Público do Trabalho deve investigar o caso

Segundo relatos, a Transzape guardou a documentação dos trabalhadores e os impediu de se organizar e ter contato com os canais de denúncia. O caso será apresentado pelo grupo de motoristas ao Ministério Público do Trabalho (MPT) para apurar as evidências de trabalho escravo e tráfico de pessoas.

Em novembro de 2017, a Transzape assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público do Trabalho, em Campinas, em decorrência de reclamações na Justiça do Trabalho sobre as condições da estrutura oferecida pela empresa aos seus empregados. Os banheiros não possuíam material de higiene, portas, pias e a instalação elétrica era precária.

Os relatos mostram, ainda, que a empresa não realizou exame médico ocupacional nos funcionários para averiguar se estavam aptos para o trabalho, o que é obrigatório por lei. A reclamação contra a transportadora foi ajuizada em novembro de 2018, após o cumprimento de todos os itens do TAC.

UMA alma negra fez vários pedidos de contato com a transportadora Transzape e a família Zapelini por cerca de duas semanas, sem resposta. Um funcionário da empresa que trabalha na sede catarinense e responsável pela fiscalização do fluxo de trabalho dos motoristas disse, via WhatsApp, que enviaria o pedido de esclarecimento “à gerência”, mas não retornou.

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Os motoristas afirmam que o relato de viagens extenuantes, sem descanso ou folga, pode ser comprovado pelos relatos de entradas e saídas nas instalações da Nestlé. A multinacional, por sua vez, informou à assessoria de imprensa que analisará o caso.

Nota enviada pela Nestlé após a publicação do relatório, às 19h54 do dia 1º de abril de 2021:

“A Nestlé não tolera violações de direitos trabalhistas, que incluem trabalho forçado e / ou análogo ao escravo. A empresa tem o compromisso de garantir que sua cadeia de suprimentos cumpra a legislação sobre o assunto, bem como zelar pela dignidade da pessoa humana e. , exige que os fornecedores cumpram os Nossos Princípios de Gestão Empresarial, a Norma de Fornecimento Responsável e o Código de Conduta Empresarial, documentos que estabelecem, entre outros, o cumprimento dos direitos humanos, especialmente em relação ao trabalho digno.

A empresa ressalta que não possui contrato direto com os motoristas, sendo que tal vínculo empregatício é sempre realizado por meio de transportadoras, que não possuem contrato de exclusividade com a Nestlé e podem trabalhar para outras empresas. A empresa também mantém uma norma de contratação em que, ao fechar o serviço para a Nestlé, a transportadora deve apresentar roteiro de viagem do caminhoneiro para aquela determinada carga, apresentando pontos de parada, pousos, entre outros requisitos, a fim de evitar a ocorrência de trabalho horas em desacordo com a legislação em vigor. Ressalte-se que a Nestlé opera com transit times maiores do que a prática de mercado, de forma a proporcionar viagens dignas e em estrito cumprimento da legislação.

Para garantir que seus produtos sejam distribuídos em mais de 5.500 municípios brasileiros, a Nestlé trabalha com cerca de 500 transportadoras que realizam mais de 1 milhão de viagens por ano. No caso anterior, a Transportadora Transzape é uma das prestadoras de serviço e, assim como todas as transportadoras que trabalham para a empresa, têm seus motoristas cadastrados em sistema informatizado independente e integrado, incluindo cadastro de CPF e CNH. As informações são verificadas em tempo real em cada unidade da empresa, sendo que o carregamento e posterior deslocamento só são autorizados se toda a documentação estiver em dia.

Além disso, a Nestlé realiza treinamentos periódicos para conscientizar os motoristas que transportam nossos produtos para uma direção segura, além de verificar o estado de conservação e manutenção de todos os veículos, a fim de reduzir o nível de riscos e acidentes nas estradas. ”

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