Real ou REAU: quero ser livre para escolher o meu

19.06.2021 09:40

* William Zamur

Há cerca de um mês, um grupo de brasileiros lançou o Mutt Finance, ou REAU, uma criptomoeda lúdica 1 – “meme” – cujo símbolo é o vira-lata caramelo, que ficou famosa pela petição com 60 mil assinaturas pedindo que constasse na nota de 200 reais. Em parte por causa do trocadilho com nosso real fiduciário, em parte por causa de flutuações repentinas de preços, a REAU logo atraiu milhares de investidores e a atenção da mídia, chegando a triplicar o valor em dólares apenas para perder 90% dele logo em seguida, por suspeita de um golpe . Tudo isso em menos de 10 dias. Esse jogo, porém, mostra a falta de liberdade dos indivíduos na escolha do meio de troca.

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Não é a primeira vez que uma criptomoeda instigou esse tipo de reflexão. O próprio Bitcoin, a primeira e mais famosa criptomoeda, surgiu em 2008 com a proposta de ser um meio de troca global, independente de uma autoridade central. Também não é novidade usar “memes” para atrair a atenção do público. Lançado alguns anos depois do Bitcoin, em 2013, Dogecoin, ou DOGE, tem como símbolo um cachorro Shiba Inu e inspirou REAU. Criado inicialmente como uma piada entre dois engenheiros, tornou-se viral e se tornou o segundo meio de troca mais usado para agradecer a alguém por ter feito algo bom para a web – uma prática conhecida como “gorjeta”. Este ano, o DOGE voltou à atenção do público após tweets de Elon Musk e do rapper Snoop Dogg indicando apoio ao projeto.


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Além das semelhanças, a REAU inova nos parâmetros econômicos embutidos em seu código – sua “tokenomics”. Enquanto o Dogecoin, por exemplo, não tem limites quanto ao número de novos DOGEs que podem ser emitidos e, portanto, é inflacionário, o REAU se propõe a ser deflacionário, por meio do uso de três funcionalidades.

O primeiro limitou a emissão inicial máxima dessa criptomoeda. Além disso, a Mutt Finance cobra uma taxa de 5% sobre todas as transações feitas com a criptomoeda. Deste montante, 2% é distribuído aos detentores de REAU, incentivando a sua poupança, e os restantes 3% são encaminhados para um “pool de liquidez” – “pool de liquidez” – cujo objetivo é facilitar novas transações. Por último, a Mutt Finance deseja criar uma loteria. Dos valores arrecadados com a venda de ingressos, parte seria destinada ao pagamento do prêmio, parte a ONGs que hospedam cães vadios e, por fim, o restante seria destruído para reduzir a oferta circulante de REAUs.

É impossível prever se o projeto Mutt Finance alcançará seus objetivos. Mas é um facto que a sua existência, assim como o Bitcoin e o Dogecoin, nos faz questionar o grau de liberdade de escolha dos indivíduos quanto à sua moeda de câmbio.

Ludwig von Mises (1881-1973), um austríaco exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, foi um dos primeiros economistas liberais a questionar o modelo monetário atual, no qual os governos privam os indivíduos da liberdade de escolher seus meios de troca. Seu livro póstumo, The Six Lessons, reúne um conjunto de palestras proferidas pelo autor na Universidade de Buenos Aires em 1959 e sintetiza suas ideias de forma acessível a um público menos familiarizado com as teorias econômicas.

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Em meio às aulas, Mises discute diversos temas, como a origem do capitalismo na inovação e a melhoria do padrão de vida que proporciona. Também refuta a falácia de que o governo gera bem-estar ao interferir nas relações sociais e no livre mercado, como, por exemplo, quando usa seu monopólio estatal para determinar e emitir moeda. Como explica o autor, essa centralização dá ao governo a capacidade de mudar aspectos econômicos da sociedade, transformando as decisões econômicas em políticas.

O governo que quer promover algo que considere de interesse da sociedade, como a construção de um estádio de futebol “padrão FIFA” em Manaus, para usar um exemplo que voltou à mídia por consumir recursos públicos enquanto a cidade vive um crise de saúde, precisa de dinheiro. Isso cria dois problemas.


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O primeiro está na própria decisão. A quem interessa construir um estádio em Manaus? Beneficia toda a sociedade ou apenas os empreiteiros que o construíram? Agora, mesmo o mais honesto dos governos nunca representará os interesses de toda a nação, pois estes não são uniformes. Nesta decisão, portanto, a intervenção governamental beneficia necessariamente aqueles que recebem os recursos pretendidos e prejudica aqueles que fizeram uma contribuição obrigatória para ela, por exemplo, pagando seus impostos. É o intervencionismo de “grupos de pressão”, nas palavras de Mises.

O segundo deriva do primeiro. Se o seu orçamento já está comprometido com outras ações, como você financiará a construção e manutenção desse estádio? O governo então se depara com algumas alternativas. Pode aumentar os impostos e sua arrecadação, expropriando recursos de indivíduos e ainda mais insatisfando aqueles que não quiseram destinar seu dinheiro para isso. Também pode reduzir gastos que foram planejados para outros fins, alienando grupos de pressão que esperavam receber benefícios. Ou, por último, você pode evitar esses custos políticos com a opção mais fácil: imprimir dinheiro. “Com um golpe, o governo cria moeda fiduciária”, diria Mises. Afinal, só ele, o governo, pode fazer isso.

Quem recebe primeiro esse dinheiro recém-impresso passa a “competir” com os consumidores que antes eram compradores de um determinado bem e, sem um aumento imediato na oferta de bens, ocorre a inflação dos preços. Soma-se a isso a maior oferta do meio circulante e esse efeito do aumento de preços se estende a outros bens e serviços.

A inflação gerada por governos intervencionistas, portanto, busca favorecer grupos de pressão e é viabilizada pelo monopólio que define e emite o meio circulante, que pode causar o colapso do sistema monetário e a deterioração da própria sociedade. Apesar dessa receita cruel, Mises termina suas seis lições otimistas de que ideias melhores substituem naturalmente as más ideias. Se isso for verdade, talvez o surgimento de criptomoedas “meme”, como a REAU, nos leve a um futuro em que os indivíduos poderão escolher seus meios de troca, seja porque apóiam ONGs que acolhem cães vadios, seja porque evitam a inflação e a intervenção governamental.

Guilherme Zamur é graduado e mestre em Administração pela FGV-SP. ESTÁ consultor empresarial, fundador do Fiscal Cripto Fácil e associado ao IFL-SP.

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Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal.


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