Mirtes transforma a tristeza pela morte de seu filho em uma luta

Mirtes Renata reinventa a rotina e dá um novo significado à dor e à saudade. Inscrita no curso de Direito, segue em busca de justiça e trabalho na implantação do Instituto Menino Miguel, no Recife (Foto: Acervo Pessoal)

Texto: Victor Lacerda Edição: Lenne ferreira

No dia 2 de março, a morte do menino Miguel, pernambucano de 5 anos, abandonado aos cuidados de Sarí Côrte Real, completou nove meses. Para a mãe Mirtes Renata, que iniciou o curso de Direito para entender mais sobre as etapas processuais, não sobrou muito a não ser transformar o luto em briga. Ela continua em busca de justiça e tenta reinventar a rotina, aprendendo a lidar com a saudade de casa. O processo judicial segue em ritmo lento. A demora, que, para o universitário, é apenas mais um exemplo da diferença de tratamento quando a vítima é filho de uma negra pobre.

Em entrevista exclusiva a Alma Preta, Mirtes mostra que, mesmo em meio ao sofrimento e a toda a luta para fazer justiça, tem conseguido reenquadrar a perda precoce do filho e, por meio do ativismo, ajudar outras pessoas. Em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), participa ativamente da fase de construção para a futura execução das atividades de assistência social e fortalecimento dos Direitos Humanos através de um marco na história de Pernambuco: a criação do Instituto Menino Miguel .

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Ainda com dificuldades na realização das atividades devido à pandemia do COVID-19, o Instituto já está em coordenação para iniciar os seus serviços online. A ideia principal é priorizar a população periférica e em situação de vulnerabilidade social, sejam elas crianças, jovens, adultos ou idosos.

(Foto: Coleção Pessoal)

(Foto: Coleção Pessoal)

Confira a entrevista na íntegra:

AP: Como surgiu a ideia de criar o Instituto Miguel?

Myrtles: A criação veio de uma homenagem ao meu filho pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Como Miguel representava uma criança doce e prestativa de uma família humilde, eles decidiram colocar seu nome no Instituto. A universidade já tinha frentes de atendimento com atividades com crianças e idosos e decidiu unir essas ações para pessoas em situação de vulnerabilidade, que precisam de assistência. Com isso, há cerca de seis meses, entraram em contato comigo, conversaram sobre as propostas e fui até eles para assinarem a concessão do nome do Miguel.

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AP: Como o Instituto vai atuar? Quais são as atividades propostas?

Myrtles: O objetivo do Instituto Menino Miguel é atuar junto aos alunos do Rurais das comunidades, inicialmente no Recife e na Região Metropolitana. Como estamos em uma pandemia de COVID-19, as atividades ainda estão sendo reformuladas, como o atendimento psicológico, que agora é virtual. Assim que as coisas melhorarem, a nossa ideia é ir até as comunidades, ouvir as pessoas, fazer um levantamento das carências e necessidades de cada local para podermos realizar os projetos. Nossa proposta é promover atividades como leitura para crianças, vigilância da saúde da mulher, qualificação profissional para jovens, exercícios que promovam movimento e saúde para idosos, entre outras atividades.

AP: Que apoios e parcerias estão ajudando nesta fase de implementação?

Myrtles: Além do Rural, contamos também com a participação do Centro de Educação Continuada de Conselheiros dos Direitos da Criança e do Adolescente e de Conselheiros Tutelares de Pernambuco, a Escola dos Conselhos. Conseguimos recentemente aprovar, juntamente com a proposta do Deputado Federal Túlio Gadêlha, uma emenda parlamentar para promover a formação inicial e continuada dos profissionais e agentes sociais que atuam nos Profissionais do Sistema de Garantia de Direitos e outras atividades. Tudo com o objetivo de combater a violência e a vulnerabilidade.

AP: Você acredita que o apoio popular serviu de motivação para seguir em frente e transformar o luto em luta?

Myrtles: Sim Sim. Certamente! Essa mudança me fortaleceu muito. O apoio popular foi essencial para me fortalecer e depois continuar minha luta. Além disso, para esta votação de aprovação da alteração, tive o apoio das pessoas que estão comigo, que pedem justiça para o Miguel e não vão parar. Tudo isso me fortaleceu para entrar na faculdade de direito. Quase uma semana de aulas e já estou cheio de coisas para ler. Focado em estudos, seja sentado no ônibus, seja no metrô. O objetivo é avançar no meu treinamento sempre que puder.

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AP: Quais são as expectativas de futuro para o funcionamento do Instituto?

Myrtles: Crescer e desenvolver o projeto para que não atenda apenas Recife e Região Metropolitana, atingindo todo o estado. O nosso propósito é cuidar das pessoas, muito baseado em quem o Miguel era, uma criança que gostava disso, para ajudar os outros. Por isso, pretendemos atingir e cuidar do maior número de famílias e garantir o seu bem-estar.

Em publicação feita na manhã desta terça-feira (3/2) em perfil de rede social, Dona Mirtes prestou uma homenagem especial ao filho. “Sua memória vive em minha vida e em todas as partes da casa e nunca irá desaparecer. Jesus e Nossa Senhora têm você em seus braços, mas eu terei você para sempre em meu coração. Meu eterno amor, Miguel Otávio ”, escreveu sua mãe.

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