Mar de leite condensado leva governo de Bolsonaro ao congestionamento

O Presidente Jair Bolsonaro reage durante a cerimônia de Ação de Graças, no Palácio do Planalto em Brasília, Brasil, 16 de dezembro de 2020. REUTERS / Ueslei Marcelino

Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

A crônica política brasileira é cheia de excentricidades.

Fernando Collor de Mello não caiu por causa do Fiat Elba, mas é do Fiat Elba que todos se lembram quando solicitados a descrever em sua cabeça, ou em 280 caracteres, a sinopse de sua visita ao Palácio do Planalto.

No encurtamento de histórias mal contadas, Luiz Inácio Lula da Silva trocou oito anos de governo e aprovação popular acima de 80% por um triplex que visitou no Guarujá e nunca viveu.

Poucos conseguem conectar lé com cré quando falam em pedalar e Dilma Rousseff, mas o impulso de pedalar, materializado na imagem dos exercícios matinais da presidente, é a primeira palavra que vem à mente quando se fala em sua queda.

Dólares na cueca, bolsa de dinheiro na pizzaria, conversas sobre o preço do silêncio com o dono de uma geladeira, tapioca com cartão corporativo: diante da gravidade dos fatos, o simbolismo da ação é o que detona a atenção e fragmentos de memória nos espectadores mais sonolentos da cena política.

Jair Bolsonaro surfou em cada um desses escândalos para dizer que era diferente de tudo o que está por aí.

Seu passado (ainda) não o condena, mas ele lança apenas suspeitas em episódios envolvendo rachaduras e outros belos nomes e apelidos que, no varejo, se resumem a velha e má corrupção.

Leia também:

Em parte pelo capital político de quem foi eleito outro dia mesmo com 57,7 milhões de votos, em parte pela abstração de quem não consegue situar as viagens de uma suposta operadora em Rio das Pedras, Alerj, Atibaia e interior da Bahia no o mesmo lugar. , onde um amigo foi emboscado, Bolsonaro cruzou a relativamente distante metade de seu mandato, pelo menos na mente de seus partidários, dos escândalos mais facilmente traduzíveis para o público em geral. Com alguma habilidade, conseguiu evitar as laranjas de seu (agora) ex-ministro do Turismo, as denúncias de ingerência na PF levantadas por Sergio Moro, nas rotas de um vôo oficial cheio de cocaína para a população em geral. Espanha e até mesmo um edital além de suspeito para levar laptops ao ensino público – se não fosse a Controladoria-Geral da União, cada aluno de uma escola mineira receberia 117 cadernos.

Até hoje, como Elio Gaspari não se cansa de lembrar em suas colunas, ninguém sabe como foi parar ali a tartaruga, retirada a tempo de ser detonada em escândalo.

Na pandemia, as compras notavelmente precipitadas em uma escala injustificável de cloroquina não parecem tirar o cidadão da letargia com meio olho / meio alheio às notícias do Planalto. De boca aberta, Bolsonaro conseguiu jogar a gravidade do caso no limbo, argumentando que não há comprovação científica dos benefícios da droga no chamado tratamento precoce do coronavírus, mas também não há evidências em contrário. . Aceitar ou não o argumento é uma questão de fé, embora não seja suficiente para libertar o presidente dos tribunais superiores, onde pode ser julgado por ações e omissões.

Aos poucos, porém, a fama de mito incorruptível vendido na campanha começa a dar água. Muitos começam a perceber que o herói tem pés de lata.

No início da semana, um caminhão de leite condensado estacionou em volta do presidente que gosta de enfiar a iguaria em seu pão no café da manhã, numa imagem que trouxe lágrimas aos olhos de quem viu em sua mesa matinal um exemplo de humilde homem com hábitos alimentares estranhos, mas frugais.

Nas redes, o gasto de R $ 15 milhões com um produto aparentemente supérfluo (pelo menos até que alguém venha ao público esclarecer a urgência das compras) virou assunto, meme e caiu em pedido de investigação da oposição. Foi uma bola quicando demais para não ser chutada.

Mesmo quando se trata de compras governamentais ao longo do ano, e que poderiam ser melhor dimensionadas à luz de alguma comparação histórica e um pouco mais contextualizada, as buscas pela etiqueta “leite condensado” e “bolsonaro” explodiram. Concorriam apenas com a palavra “chiclete”, outro item do carrinho do supermercado que custava 2 milhões aos cofres públicos.

Mesmo quem não consegue bola de goma de mascar sabe, ou deveria saber, que esta carga não chegou de camião à porta da Alvorada para alguma festa de fim de ano promovida pelo presidente, mas da mesma forma que o eleitor ligou, em tantas ruídos da notícia, do dinheiro que sobrou do café do ex-ministro Geddel Vieira Lima ao dinheiro que faltou no bolso no auge da crise, é inevitável pensar que no país onde falta oxigênio hospitalar, há sobrou dinheiro para o governo comprar goma de mascar e leite condensado.

Ao longo do dia, os espíritos curiosos e investigadores de plantão publicaram os resultados das suas contas relativos ao preço médio e ao número de artigos da terceira, quarta ou quinta necessidades distribuídas em 2020, ano marcado pelo coronavírus e pela queda da economia.

Se fosse em outros momentos, Bolsonaro e seu odioso escritório não pensariam duas vezes antes de fazer todo tipo de conteúdo relacionado à gula alimentar e desviante dos oponentes veiculado nas redes e grupos de WhatsApp das melhores famílias. A mamadeira com ponta peniana não teria tanto apelo quanto a montanha de latas de leite condensado e chiclete adquirida em seu manejo.

Com exceção de uma nota aqui e outra ali, a questão das compras governamentais tem sido ignorada pelos jornais até agora. Nas redes, porém, tornou-se o ingrediente perfeito para colar o Bolsonaro em uma fama que nem as compras suspeitas da área de Saúde conseguiram colar. É como se, por fim, o capitão que infantiliza o debate público com fantasmas relacionados a kits gays e outras garrafas experimentasse seu próprio veneno – um pouco mais doce, mas ainda com potencial destrutivo em tempos de fama construída e desconstruída pelas redes.

O silêncio constrangedor da madrugada e o apagão repentino do portal Transparência do governo, que saiu do ar no auge da comoção, são ingredientes adicionais no congestionamento que o governo, pelo menos até agora, não sabe como superar.

Já existem quase 220.000 mortos na pandemia.

LEIA TAMBÉM

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Noticias