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Folhapress

Paulo Mendes da Rocha, o último gigante da arquitetura brasileira, morre

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Paulo Mendes da Rocha, que foi o mais brasileiro dos arquitetos internacionais, morreu na madrugada deste domingo (23), aos 92 anos. Foi internado em São Paulo, e a morte foi confirmado pelo filho, Pedro Mendes da Rocha. Ativo desde 1955, foi descoberto em todo o mundo quatro décadas depois, quando imagens da Pinacoteca do Estado e do MuBE (Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia) circularam em revistas estrangeiras. Desde então, o conjunto robusto que já havia construído e as obras que iria realizar começaram a chamar a atenção da crítica. Os prêmios e reconhecimentos foram seguidos; estudos começariam a surgir na Europa na década de 2000. Até aquele momento, em 1995, quando tinha 67 anos, Paulo Mendes – então, pela forma abreviada, os arquitetos se referem a ele – não tinha obras construídas no exterior. Era, é verdade, o pavilhão brasileiro da Exposição Universal de Osaka em 1970. Porém, demolido no final do evento, o prédio ficou na memória apenas dos estudiosos. O caráter geograficamente restrito de sua obra não o impediu de receber todos os principais prêmios de arquitetura do mundo. Em dois anos consecutivos, ele recebeu o Mies van der Rohe de arquitetura latino-americana. O prêmio, concedido pela fundação catalã em homenagem ao papa alemão arquiteto do racionalismo arquitetônico, reconheceu, em 1999, o projeto MuBE e, em 2000, a Pinacoteca de São Paulo. Em 2006, ele se tornou o segundo arquiteto brasileiro – depois de Oscar Niemeyer, em 1988 – a ganhar o Pritzker, apelidado de “Prêmio Nobel de Arquitetura”, embora não tenha nada a ver com a Academia Sueca – é concedido pela American Hyatt Foundation. Só em 2015 iria concretizar-se o seu único projeto no estrangeiro, a nova sede do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. No ano seguinte, receberia o Leão de Ouro de Veneza e o Prêmio Imperial do Japão. Em 2017, seria a vez da medalha de ouro do Riba (Royal Institute of British Architects). Com grande parte de sua obra concentrada em São Paulo, quase se poderia dizer que ele foi o mais paulistano dos arquitetos brasileiros de alcance internacional. Mas ele era capixaba, nasceu Paulo Archias Mendes da Rocha em Vitória, em 25 de outubro de 1928. Seu pai, Paulo de Menezes Mendes da Rocha, era engenheiro e, junto com o empreiteiro Serafim Derenzi, pai de sua esposa, Angelina Derenzi, desenvolveu um loteamento na Praia Comprida, na capital capixaba. Pressionada pela crise financeira mundial de 1929, a família – pai, mãe, Paulo e irmã mais nova – mudou-se para o Rio. Da casa do avô paterno, Francisco, em Paquetá, o arquiteto relata memórias de pescadores. Mais tarde, quando tinha cerca de seis anos, foi com a mãe e a irmã conhecer o pai, que fora tentar a sorte em São Paulo. A família morou durante anos em uma pensão na Avenida Paulista, que o menino andava de um lado para o outro para estudar no colégio São Luís, observando suas construções. “Casas muito interessantes. Vi-as desaparecer uma a uma”, recordou num depoimento registado por Luís Ludmer na sua dissertação de mestrado na FAU-USP, em 2019. “Vi toda a Avenida Paulista, como se assim fosse , no meu atacante, de um momento para o outro. ”Aos 16 anos, tentou sem sucesso entrar na Escola Naval, voltando a morar com o avô no Rio por dois anos. Na hora de escolher a profissão, decidiu que queria ser arquiteto, mas não iria para a “escola do pai”. Paulo de Menezes Mendes da Rocha havia construído carreira em São Paulo e era, na época, diretor da Escola Politécnica da USP, onde poderia optar pelo título de engenheiro arquiteto. Ele preferiu deixar a sombra do pai e estudar no Mackenzie, que se formou em arquitetura. Ele destacou, nos treinamentos que recebeu no curso – aliás, bastante clássico -, as aulas com Roberto Zuccolo. Zuccolo, um dos introdutores das estruturas protendidas no país, teria muita influência não só na formação de Paulo Mendes, mas também nos nomes de outras escolas paulistas de arquitetura que cursaram o Mackenzie, como Fabio Penteado e Pedro Paulo de Melo Saraiva. A valorização da clareza estrutural e, mais do que isso, da arquitetura que é estrutura manifestar-se-ia de forma evidente desde a sua primeira obra, o Ginásio do Clube Athletico Paulistano. A estrutura é uma forma circular em que seis pilares sustentam o telhado de madeira e as telhas de metal por meio de amarrações; os lados abertos abrem para um terraço. Quando venceu o concurso, em 1958, Paulo Mendes se formou há quatro anos e dividia o escritório com sete colegas no centro da cidade, fazendo pequenos trabalhos. “Neste concurso participaram muitos dos mais destacados arquitetos paulistas. E assim, de fato, entrei no cenário profissional. Fiquei conhecido como ‘arquiteto’”, escreveu em nota à Folha em 2018. O projeto da academia, que seria premiado na 6ª Bienal de Artes de São Paulo, em 1961, foi feito em parceria com João De Gennaro. Paulo Mendes sempre trabalhava com outros colegas – associando-se não raro a discípulos de diferentes gerações, como os escritórios do MMBB e do Metro. Depois, seria convidado por João Batista Vilanova Artigas para lecionar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1961. Artigas – que participou do concurso para o ginásio – é o nome fundador da chamada escola paulista, que teria seu expoente em Paulo Mendes mais notável. O brilho desse início teria sido obscurecido na ditadura. Paulo Mendes continuou trabalhando com De Gennaro e a dupla teve conquistas importantes, como o Jockey Clube de Goiânia, e participou de diversos concursos de obras públicas. Em 1969, Paulo Mendes foi cassado, junto com Artigas e 64 outros professores da USP, pelo governo militar. Não podia mais dar aulas – que retomaria em 1980, com a anistia, que duraria até 1998, quando se aposentou compulsoriamente aos 70 anos – ou trabalhar para o Estado. Paradoxalmente, ele acabava de ganhar o concurso do pavilhão brasileiro na Expo’70, em Osaka. Assim, ele se tornou um porta-voz de um governo que não o queria. O edifício, de aspecto simples e estrutura complexa, consistia em uma grande cobertura em cúpulas – evocando a da FAU no campus da USP, acabada de ser construída com o projeto Artigas -, apoiada em morros construídos com movimentos no terreno. A demolição após a feira era o destino esperado para quase todos os pavilhões. Em entrevista à Folha Paulo Mendes, porém, ele disse ter recebido uma proposta de uma universidade para que o prédio fosse preservado e utilizado pela escola de música da instituição. Mas, disse ele, o governo brasileiro se opôs e o pavilhão sucumbiu. “Foi o grande impeachment que sofri”, disse então. Mesmo com as restrições impostas pelo regime militar, grande parte da produção do arquiteto era proveniente de moradias unifamiliares, em bairros do sul e oeste, onde havia terrenos generosos, como Butantã e Jardim Guedala. Entre as décadas de 1960 e 1980, foram cerca de 30 projetos do gênero, 23 construídos, como as casas Masetti (1967) e Gerassi (1989). Em 1964, ele fez da sua própria residência uma espécie de experimento. A Casa Butantã, como é conhecida, abrigou sua família entre as décadas de 1970 e 1990 – já era pai de quatro dos cinco filhos que teria com sua primeira esposa, Virgínia Ferraz Navarro. “Esta casa pode ser entendida da seguinte forma: uma construção engenhosa que foi feita para ser ocupada como casa”, disse em nota a Catherine Otondo para o livro “Casa Butantã” (Ubu, 2016). Apesar de ter projetado tantas casas, ele defendeu os prédios de apartamentos, que proporcionam a densidade necessária, facilitando o transporte público em uma cidade que, segundo ele, não era bem feita. Lamentou que São Paulo tenha verticalizado lote em lote, sem planejamento. Ele viu o Copan de Niemeyer e o Conjunto Nacional de David Libeskind, exemplos de urbanidade. Ele também é autor de projetos de edifícios requintados, como Guaimbê (1962), nos Jardins, e Jaraguá (1984), na Pompeia. Assina também, com Vilanova Artigas e Fabio Penteado, o Conjunto Habitacional Zezinho de Magalhães, em Guarulhos, em 1968. Na década de 1990, sua obra volta a incorporar grandes projetos, muitos deles para o setor cultural. Além do já citado MuBE, a Pinacoteca do Estado, que ele projetou em 1992 com Eduardo Colonelli, reformando um prédio de 1900 da Ramos de Azevedo, e o projeto original do Museu da Língua Portuguesa de 2006, instalado na Estação da Luz e desenvolvido com seu filho Pedro. Em 2017, foi inaugurado o Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Projetado com o MMBB, está inserido na vida das calçadas do centro, com 13 andares interligados por rampas e uma piscina com vista panorâmica. Duas de suas grandes obras ficaram inacabadas – a Praça dos Museu da USP; que não teve fim por problemas orçamentários, e o Cais das Artes, complexo artístico e museológico de Vitória, paralisado por longos anos por imbróglios judiciais. Entre a longa lista de projetos que nunca saíram do papel, realidade comum a muitos arquitetos, está a praça que reconfiguraria o principal acesso ao Parque do Ibirapuera, projeto que foi arquivado na Prefeitura de João Doria (PSDB) por falta de recursos. . A ideia era criar uma entrada mais generosa para os pedestres, retirando vagas e aumentando as superfícies permeáveis. “A pé, a abordagem do parque é mais agradável”, disse à Folha, ao comentar o projeto, em 2016. Ele mesmo cultivou o hábito de caminhar até os 80 anos. Era comum, ainda na década de 2000, vê-lo passear ao lado de sua segunda esposa, a arquiteta e designer de joias Helene Afanasieff, pelo bairro de Higienópolis. Ele havia se mudado para o bairro da região central na década anterior, aproximando-se do escritório que ocupava desde 1973, no quinto andar do prédio do IAB, na Vila Buarque. Ele deixa a esposa, Helene, e os filhos Renata, Guilherme, Paulo, Pedro, Joana e Naná.

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